Tarefas dos alunos de TO
Ser interdisciplinar
Marcelo Stein de Lima Sousa
Como podemos ver a noção de "interdisciplinaridade" no MADE?
A partir daquilo que presenciei nos últimos meses (anotações sobre o que eu assisti; menções ao trabalho interdisciplinar), creio que podemos perceber a "interdisciplinaridade" a partir de duas óticas: (i) uma centrada nas disciplinas que fornecem o background de formação aos participantes da experiência do MADE (melhor expressa talvez nas "batatas de Raynault"1; ou (ii) a partir de uma percepção da trajetória individual de cada um dos envolvidos (utilizando a noção de "trajetória"2 em Wenger).
A primeira linha de visada pode ser identificada no esforço quase que coletivo de atravessar fronteiras disciplinares e se candidatar a uma interlocução humilde e, ao mesmo tempo, privilegiada em um "diálogo de saberes", algo que me sugere uma primeira tentativa de conectar "batatas" & "diálogo". No discurso de cada manifestante a favor do "interdisciplinar", uma constante que se faz presente é o esforço de cada um para se manter aberto às influências de outras disciplinas sem, contudo, abdicar da sua própria formação, de seu vocabulário, e de seu ponto de vista competente sobre quaisquer dos assuntos tratados no Programa (como fazer um "purê" de batatas? é possível? ou a "separação" é inevitável?). Desta perspectiva, é natural e, até certo ponto, compreensível, enfatizar uma certa resistência a significados "estrangeiros" amenizada parcialmente pelo esforço individual, pelas oportunidades de interação, pelos conflitos que se revelam… reveladores (esforço em vencer barreiras, obstáculos; será frutífera essa tentativa? como juntar ou justapor o que, aparentemente, está separado?). A sensação ao final — ou mesmo durante — a empreitada é de transformação: "não posso mais ser o mesmo". Modifiquei-me, fui transformado, passei pelo ritual pagão que me garante a entrada no rol dos que sobreviveram aos embates internos e externos provocados pela interdisciplinaridade, é o que cada depoimento parece sugerir: todos passamos por um processo, existem etapas, ocorrem "testes". A ''modificação'', no entanto, parece ser individual…
A segunda ótica, me parece, surge deste aparente ponto final da experiência. Percebida como ''movimento'', a trajetória de um aprendiz não termina: o que parece ser o final, na verdade esconde um "deslocamento" por entre o ''complexus''/objeto complexo do interdisciplinar. Dez entre dez participantes transparecem ter "vivido" uma experiência perturbadora. O resultado é, certamente, ''físico'': "mudei minha visão", "minha ansiedade em tal etapa era muito grande", "fiquei doente", … Esta sensação é decorrência de uma peculariar característica de qualquer aprendizado: ele só ocorre realmente se for "incorporado", se for transformado em corpo que ''sabe'' fazer alguma coisa: memória, músculos, reações, visões, imaginações, o corpo todo deve se modificar para que eu possa apreender alguma coisa.
Entendo que, hoje, a produção de conhecimento provoca estas e outras reações. Passamos, talvez, para aquilo que alguns pesquisadores estão denominando de ''Modo 2'', um fazer/produzir conhecimento que vai, justamente, além do mero disciplinar3. Isto, em ambos os sentidos: tanto uma "disciplina" cujas fronteiras foram dissipadas, remendadas, borradas; quanto uma "disciplina" pessoal que envolve o estabelecimento e a percepção de outros tipos de vínculos, de relações. O filósofo Michel Serres suger que sempre convivemos com esta dupla "formatação"4: de um lado, o aspecto imposto da disciplina do Pai/pai (os mais antigos na comunidade, que preservam as tradições, mantém a normatização do fazer) e, de outro, o "atrevimento" inter-disciplinar do Filho/filho (os que acabaram de chegar, ousados o suficiente para desafiar o "jeito" de fazer, dispostos a correr "riscos" e propor outras experimentações). Desta combinação disciplina-disciplina, nos resta rever nossa própria história/estória, resta redisciplinar nossa contação. Aquela que dizemos em público e, também, a que inventamos para nós mesmos. São, na verdade, no mínimo duas estórias: aquela que nos vangloriamos de seguir e expomos a público, na esperança de uma legitimação por parte das outras comunidades das quais fazemos parte ou temos contato; e aquela que nos orienta na busca daquele outro ser que queremos ser, uma versão mais íntima e, forçosamente, menos pública.
Ao ouvir os relatos destes meus colegas de projeto, não posso deixar de perceber a força da experiência vivida, vivenciada até a raíz dos cabelos. Para Wenger, o aprendizado se dá no embate entre a experiência (o vivenciado) e a competência (o saber fazer de acordo com os critérios de qualidade da comunidade de prática)5. Por outro lado, são relatos que, a meu ver, remetem às diversas comunidades de prática pelas quais passamos em nossas vidas. Uma trajetória é feita "através" de múltiplas comunidades: das primeiras, obrigatórias (por exemplo, o jardim de infância), nos encaminhamos, por meio de escolhas nossas ou dos outros (daí a importância dos adultos gerarem oportunidades para os mais novos) a outras comunidades, sempre em busca de algum tipo de "identidade", seja a profissional ou a pessoal. A cada prática experimentada, nos deparamos com um aprendizado que nos leva a outros grupos, a outros futuros. Um "movimento" que nos permite, aos poucos, definir melhor quais comunidades que nos interessam, no presente e no futuro: pequeno, não quis ser jogador de futebol; hoje, quero me doutorar; amanhã, gostaria de contribuir para as discussões sobre meio ambiente.
Aparentemente, vivemos "uma" disciplina, "uma" comunidade. Aos poucos, com surpresa, nos damos conta que somos pluripertencentes. Nossa percepção do presente talvez nos leve a acreditar que somos "filhos" daquela comunidade à qual estamos mais fortemente vinculados. Mas no "confronto" com outras idéias, percepções ou saberes, podemos perceber nossa trajetória, nosso deslocamento por algo que nos marca definitivamente e do qual não temos forças para "escapar". Somos seres ''pluri'', nossa identidade depende de nossas "negociações de sentido" por entre as comunidades das quais participamos6. Cometemos, dia-a-dia, várias comunidades, diversas práticas que, somadas, nos conferem uma identidade. Negociamos, negociamos, negociamos: estamos sempre fazendo um jogo entre "conjecturas" e "caridade" para podermos entender os Outros e a nós mesmos enquanto nos movimentamos7.
O espanto maior é verificar que o mesmo que nos junta, nos separa. Somos diferentes, falamos idiomas diferentes, andamos diferentes, porque todos vivenciamos este pluripertencimento de maneiras diferentes. O que há de assombroso nisto, é que esta percepção afasta qualquer possibilidade de "igualdade" e impede qualquer verdade "última, fundadora", expondo a "carne" da negociação e do diálogo. Minha trajetória por entre as comunidades me diferencia: sou físico, amo romances policiais, tenho um irmão diretor de teatro, sou casado com uma arquiteta, fiz mestrado em computação, trabalho na Tecnológica, vivo entre Blumenau e Curitiba, estou doutorando no MADE. A cada atividade, necessito de, pelo menos, uma comunidade para interagir e me dar ''forma'' (no sentido provocativo de Serres). Bifurquei-me inúmeras vezes para poder chegar aqui, em um lugar que permite uma reflexão sobre esta trajetória única, ao lado de outras trajetórias únicas que conferem concretude ao meu ser interdisciplinar. Parafraseando Serres, a "paisagem" com a qual me deparo é, no fundo, esta colcha de retalhos de práticas, resultado das escolhas que sofri, navegação coletiva por encruzilhadas, "arrodeamentos" (misto de arrodear e aleatórios) pelas "páginas" do que vivi8. Devo, então, conhecer minha ''vizinhança'', próxima e distante.





















